• Dr Marden Marinha

Além do feminino e masculino

Atualizado: 12 de Mai de 2020



O assunto é polêmico e vem, cada vez mais, ganhando visibilidade e fazendo parte de discussões profundas em diversas áreas da sociedade. Afinal, em um mundo onde muitas coisas estão evoluindo, os pensamentos, as percepções e definições acompanham essa tendência. Nos dias atuais, ao se tratar de diversidade sexual humana, a palavra pluralidade deve estar presente. “Os conceitos de homem e mulher baseados no binômio ‘macho’ e ‘fêmea’ não conseguem mais explicar as várias possibilidades do comportamento sexual humano, que apresenta desejos, identidades e comportamentos diversos observados na sociedade contemporânea”, explica o médico Marden Marinha. Dessa forma, faz-se necessário ir além dessa dupla definição para entender a realidade sobre a sexualidade humana.


Conceitos reposicionados


Segundo Breno Rosostolato, psicólogo e educador sexual, o significado de homem e mulher está mudando porque os indivíduos estão sendo realocados social e culturalmente. Isso porque a discussão entre feminilidade e masculinidade se dá por outras vertentes, com pontos de vistas diferentes, já que o papel social e sexual de ambos são diferentes das décadas passadas. “A ideia de equidade está cada vez mais em voga e traduz um momento histórico de transformações. Aliado a isso, a diversidade sexual corrobora para estas mudanças”, aponta Breno. Entre o conceito de comportamento e mentalidade construído socialmente de homens e mulheres e indivíduos estereotipados, existe, atualmente, uma pluralidade de identidades que se afirmam e se legitimam. Vozes silenciadas estão se manifestando e questionando padrões, normas e binaridades. “Existem pessoas que não se encaixam nas ideias de gênero masculino e feminino. Elas possuem características individuais que se distanciam desse enquadramento”, exemplifica o psicólogo e educador sexual.


Sexo, gênero ou orientação?


Os três termos se diferem e não devem ser usados como sinônimos. Cada um deles precisa ser entendido de acordo com sua singularidade e complexidade em relação à formação de cada ser humano. “O que usualmente chamamos de sexo se refere ao biológico, ao que é possível avaliar objetivamente. Ou seja, os genitais, hormônios e cromossomos”, explica Marden Marinha. Dessa forma, o sexo feminino possui vagina, ovários e cromossomos XX, enquanto o masculino detém pênis, testosterona e cromossomos XY. Existe, também, o interssexo, denominação dada ao indivíduo quando as gônadas apresentam características intermediárias entre os dois sexos ou quando o aparelho genital não condiz com o tipo cromossômico da pessoa.


O gênero (ou identidade de gênero), por sua vez, tem relação com a mente, como o sujeito se vê quando olha para si mesmo, o que ele pensa e como se comporta em seu papel social. “Trata-se de como ele se reconhece e se identifica”, aponta Marden. A partir daí, utilizam-se dois termos: transgênero (quando a pessoa não se identifica com as características do gênero designado a ela no nascimento) e cisgênero (quando existe identificação com as particularidades do gênero de seu nascimento).


Já a orientação sexual, segundo Marden, tem a ver com aquilo que sentimos em relação a outra pessoa, com a direção do afeto amoroso e da atração sexual e emocional. “Ela implica na maneira como vivenciamos o desejo, cuja fluência do prazer vai calcar a busca do objeto de amor. Por exemplo, o homossexual possui como objeto de amor e prazer alguém do mesmo sexo, o heterossexual alguém do sexo oposto, o bissexual em ambos os sexos, e os assexuais não associam o sexo para a formação de uma relação como o outro”, completa Breno.


Segundo o especialista, a orientação sexual (homossexual, heterossexual, bissexual, assexual ou pansexual – saiba mais sobre esses dois últimos termos no box ao lado) é uma construção subjetiva e individual. Ou seja: trata-se de uma composição sentimental do sujeito, como ele se orienta e direciona seu desejo e sentimentos. “Portanto, prefira o termo homoafetivo, pois o sufixo ‘sexual’ sugere que as relações e vínculos estabelecidos sejam reduzidos ao campo sexual e isso não é verdade”, aponta o psicólogo e educador sexual.


“A ideia de equidade está cada vez mais em voga e traduz um momento histórico de transformações. Aliado a isso, a diversidade sexual corrobora para estas mudanças”

Breno Rosostolato, psicólogo e educador sexual


Entre o conceito de comportamento e mentalidade construído socialmente de homens e mulheres e indivíduos estereotipados, existe, atualmente, uma pluralidade de identidades que se afirmam e se legitimam


Diferenciando Conceitos


Transgênero, transexual e travesti – termos parecidos, mas com significados distintos. Segundo o psicólogo e educador sexual Breno Rosostolato, o vocábulo “trans” significa “além de” ou “através de”. “Ou seja, está na transição entre o masculino e o feminino. O conceito se refere a uma terminologia que abrange variadas identidades de gênero, dentre elas a transexual, travestis, crossdressers, entre outros”, explica Breno. No Brasil, algumas terminologias se diferem ao serem usadas por movimentos sociais, mídia e população em geral. Não há consenso sobre as definições. No entanto, as mais bem aceitas entre os pesquisadores e a comunidade trans são as seguintes:


  • Transexuais, segundo Breno, são pessoas que se reconhecem como mulher ou homem (identidade de gênero) diferente do gênero designado no nascimento, ou seja, atribuído ao órgão genital (pode ter feito a cirurgia de mudança de sexo ou não). O travesti, embora tenha o mesmo desejo e invista em roupas e acessórios femininos (assim como o transexual), sente-se confortável com o órgão sexual e o mantém.

  • Genderqueen: são indivíduos que não se identificam com nenhum gênero ou que transitam entre eles. Também são conhecidos como não binários.

  • Intersexo são aqueles que nasceram com má formação da genitália, podendo ter diversas variações com características femininas e masculinas.

  • Dragqueen é o indivíduo (artista) que se veste como mulher de forma estereotipada, exagerada. No geral, maquiagens, cabelos e performances são apresentados em grandes shows com fins comerciais.

  • Crossdresser: pessoas heterossexuais ou bissexuais que, embora se identifiquem com o gênero biológico, gostam de se vestir como o sexo oposto em situações de fetiche


Assexual? Pansexual?


Segundo o médico Marden Marinho, os indivíduos assexuados podem ser definidos como aqueles que não possuem interesse sexual, podendo ou não haver interesse romântico ou amoroso. “É natural por pertencer, referir-se ou ser provocado pela natureza, sendo, desta forma, genuíno”, completa o profissional. Já o termo pansexual se refere à não limitação ou distinção de gêneros, são pessoas que sentem atrações emocionais ou sexuais por pessoas de ambos os sexos e também por outros gêneros existentes, não se limitando à ordem binária “homem-mulher


Longe de pré-conceitos


Visto que toca a expressão de liberdade e a natureza de cada indivíduo, esses assuntos deveriam ser tratados sem causar incômodo. “A sexualidade deve ser vista como um conceito amplo que extrapola a genitalidade e o coito. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o ser humano tem um aspecto central em sua vida que engloba sexo, identidades e papéis de gênero, orientação sexual, erotismo, prazer, intimidade e reprodução”, aponta Marden. Desta forma, o sexo é apenas um aspecto da sexualidade que também envolve fantasias, desejos, comportamentos e atitudes. A heteronormatividade acaba por determinar que as relações amorosas e sexuais se baseiem na heterossexualidade, patologizando todas as outras orientações sexuais como “anormais” ou “não-heterossexuais”. “Isso é um grande equívoco. O que deve ser respeitado é a diversidade afetivo-sexual e o reconhecimento das várias e outras possibilidades de relacionamentos”, completa Breno Rosostolato.



Fonte Revista Segredos da Mente - CÉREBRO E ANSIEDADE

Texto - Jéssica Pirazza/Colaboradora

Entrevistas - Érika Alfaro

Design - Vanessa Sueishi


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